Um romance narrado por um fantasma
Quem narra este livro já morreu. E é justamente por isso que consegue contar tudo sem medo.
"Será que estou louca?" acompanha uma relação que começou como paixão e foi virando, capítulo a capítulo, um exercício silencioso de duvidar da própria percepção. A pessoa que narra revisita cada fase: a euforia do início, os primeiros sinais ignorados, as frases que reescreviam a realidade até fazer a vítima se sentir a culpada, a terapia que devolveu palavras para nomear o que estava acontecendo, e a saída, que não teve nada de cinematográfica.
No fundo da história corre outra pergunta, menos falada mas igual de urgente: o que fazer com o tempo quando o corpo pode acabar antes do previsto. A narradora convive com PFIC, doença hepática rara, e é não binária num mundo que ainda insiste em pedir explicações para as duas coisas. O livro não trata isso como pano de fundo. Trata como parte do mesmo enredo: a dificuldade de ser acreditada, seja sobre o próprio corpo, seja sobre a própria dor.
A escolha de um narrador-fantasma não é um truque literário vazio. É a forma mais honesta de contar essa história: só quem já perdeu tudo consegue falar sem medo do que ainda pode perder.